sexta-feira, 29 de outubro de 2010

E no princípio...


O artigo de Walter Neves (citado abaixo) procura estabelecer a evolução histórica de nossa linhagem, a dos hominídeos (hominíneos), através da Teoria da Evolução (Darwin), baseado em dados científicos da Paleoantropologia e dos achados fósseis de milhões de anos em diversos sítios arqueológicos pelo mundo, especialmente os do Continente Africano.
A partir do que o autor classifica como o princípio da replicabilidade, como a possibilidade de outros cientistas garantirem a autocorreção das observações científicas replicando-as, refutando-as ou confirmando-as, como contraponto estabelece a idéia emprestada de Descartes chamada de “morais provisórias”, a fim de contextualizar a aproximação da Ciência com os fatos que deseja evidenciar e até mesmo manipular, através dos próprios fatos em sociedade, que são utilizados para testar as teorias em nossa contemporaneidade.
Neves se esforça em descrever a “saga evolutiva” da humanidade a ponto de evidenciar uma indicação que estabelece como referência os fósseis encontrados pela Ciência Ocidental, particularmente a contar da década de 70, resultado de um “processo”, que compreende: a fixação da bipedia; a fabricação de ferramentas de pedra; o consumo expressivo de proteína animal, o desenvolvimento de cérebro grande e complexo; a fixação da capacidade de significação no cérebro; revolução criativa e tecnológica e a ocupação de todo o planeta.
O processo evolutivo é entendido como um processo histórico, sendo que o autor evidencia a complexidade do processo de evolução baseado na Seleção Natural, adaptabilidade de situações e condições ambientais e, especialmente, ao que intitula como “acaso” e “necessidade” darwinianas, com o intuito de explicitar as diversas etapas da linhagem evolutiva de nossa espécie.
Uma das principais – e fundamentais – características desse processo evolutivo está na fixação da bipedia, já que entre os primatas, somos os únicos que nos locomovemos em posição vertical, indicado como um marcador exclusivo da linhagem humana. Darwin entendia que a fabricação de ferramentas havia sido a força seletiva que teria delimitado a fixação da bipedia, contudo, com as descobertas de fósseis de aproximadamente sete milhões de anos caracterizados até então como os primeiros bípedes, “quebra-se” (desmistifica-se, esclarece) o “mito” (“dogma”) da relação entre ferramentas versus bipedia, pois entre ambos existe uma lacuna de pelo menos 5 (cinco) milhões de anos. A bipedia pode ter sido fixada primeiro como hábito postural e após, locomocional. A locomoção bípede vertical ocorreu por volta de 2,5 (dois e meio) milhões de anos, coincidente com o surgimento do gênero Homo na África.
A bipedia é o resultado de quatro grandes novidades evolutivas em sequência cumulativa histórica: a hortogradia (liberação do tronco); a nodopedalia (alongamento dos braços); a fixação arborícola (fixação de bacias baixas e largas) e a fixação exclusivamente terrestre (encurtamento dos braços e alongamento das pernas).
A fabricação de ferramentas começou há cerca de 2,5 milhões de anos, sendo que os primeiros lascadores de pedra produziram apenas alguns “poliedros” ou “esferóides” no seu “kit de ferramentas” (nas palavras de Neves), que demarcaram o lascamento controlado de pedra com a capacidade motora desenvolvida para o período.
A pressão seletiva que levou à fixação da capacidade seletiva de fabricar e utilizar instrumentos de pedra foi o acesso à proteína animal em uma quantidade expressiva pelo processo de savanização da África, constituindo a fauna com gazelas, zebras e antílopes (pastadores) como a melhor fonte de comida rica em energia e proteínas; o carniçamento ou “carniçagem” permitiu a produção de lascas afiadas, aumentando nosso “kit de ferramentas” e que foi um grande impacto na evolução humana, sendo que os “machados de mão” indicam o “arquétipo imaginativo” de uma busca por um determinado formato produzido mentalmente com o surgimento de ferramentas especializadas com graus refinados de lascamento, o que caracteriza o “variante” da espécie.
A fixação do hábito cotidiano de lascar de forma controlada deve ter sido promovida pela viabilização da exploração da proteína animal em um contexto competitivo muito acirrado e pobre em recursos vegetais de alta qualidade nutricional e que delimita a diferenciação de nichos ecológicos, sendo que é possível que os vegetarianos exclusivos tenham sido extintos por seleção natural há aproximadamente um milhão de anos e a linhagem carnívora – que é também adaptada à ingestão de vegetais – tenha melhor se adaptado sob a perspectiva ecológica, o que pode ter contribuído para a constituição de um cérebro grande, que é um órgão “nobre”, caro, no sentido de necessitar de uma quantidade de energia e calorias que representam de 20 a 30% para manter o seu funcionamento. Não existe uma “solução adaptativa perfeita” e muitas vezes, animais muito distintos tem problemas adaptativos “resolvidos” por fixação de características anatômicas, o que possibilitou linhagens “paralelas aos humanos”, como os megadontes.
O desenvolvimento de um cérebro grande e complexo é característico do gênero Homo, no entanto, o que marca nossa linhagem é a fixação da bipedia exclusivamente terrestre e que foram os primeiros a deixar a África. O diferencial entre o Homo é o seu agrupamento social, pois quanto maior o grupo, mais arrojado se torna o processo de cooperação entre indivíduos, de sobrevivência, subsistência e de capacidade de desenvolver as inteligências naturalista, tecnológica e social, o que possibilitou talvez o quadro de significação cerebral exclusivo da espécie humana.
Especialistas acreditam que um novo módulo de fixação derivou o aspecto de nossa criatividade ilimitada, o que teria feito aflorar sistemas complexos de significação e simbologias também ilimitadas. Nosso maior sistema simbólico é a fala articulada, a capacidade de ter uma língua entre pares grupais pelo qual coisas, sentimentos, tempos, ações, interações e intenções podem ser expressas de maneira fluída, com precisão e de maneira sintética: o processo de comunicação social deve ter sido o diferencial adaptativo sobre o qual a força seletiva incidiu, fixando nosso módulo mental de significação, inclusive os mal-adaptativos (como a vaca Sagrada, na Índia).
O fato foi que a revolução do significado (criativa) do Paleolítico Superior, ocorrida em torno de 45 mil anos completou a “morfologia social” do homem moderno: primeiro, 200 mil anos, surgiu o homem anatomicamente moderno (esqueletalmente); segundo, há 45 mil anos, o homem comportamentalmente moderno. A mente moderna engendrou criatividade e significado em todas as dimensões da vida, que além de multiplicar nosso “kit de ferramentas”, expressou estilos pessoais e grupais, marcou identidades individuais e coletivas (etnicidade) e dotou o homem com uma mente complexa e poderosa capaz de ocupar todas as regiões do planeta, sendo assim, o Homo Sapiens, é provavelmente a única espécie dotada de pensamento simbólico, “singularidade” não repartida com as demais espécies e que constitui "cultura" dentro de aspectos dinâmicos e complexos como conhecemod hoje...

Resumo sobre o texto de Walter Neves, por Ariana da Silva - PPGA-UFPA - Artigo: E no princípio... era o macaco!: NEVES, Walter. Estudos Avançados 20 (58), 2006, p. 249-285.

Um comentário:

Aparecida Barbosa disse...

Muito bom! Obrigada me ajudou bastante.